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23/12/2020 às 05h15

Soja: mudanças podem quebrar o setor de biodiesel do país, diz Abiove


iviagora

Por ser o maior produtor e exportador de soja em grão do mundo, há sempre quem diga que o Brasil deveria agregar mais valor processando a soja, do que vender o grão. De fato, é isso que o setor de biodiesel tem conquistado aos poucos, com leis que obrigam o aumento da mistura do biodiesel ao diesel. Mas essa evolução, que está aumentando o volume de soja processada internamente no Brasil a cada ano, pode estar em risco.

Para entender a importância da lei dos biocombustíveis, que exige a elevação anual da mistura de biodiesel ao diesel, aprovada no fim de 2017, vamos aos números. Antes de 2017 o país processava algo entre 36 e 37 milhões de toneladas de soja. Após a aprovação da lei, o volume saltou para patamares de 43 milhões de toneladas em 2018 e chegou a 45 milhões de toneladas em 2020.

“O Brasil tem o perfil de ser o maior produtor de soja do mundo, maior exportador do complexo soja e 3º maior em volume processado. Mas se pegarmos a relação entre processamento e volume de safra produzido, estamos em 8º lugar. Ou seja, processamos pouco em relação ao que produzimos. Com o crescimento do biodiesel, passamos a enxergar um vetor para ampliar essa industrialização”, afirma o presidente da Abiove, André Nassar.

Segundo ele, a lei que obriga a ampliação da mistura do biodiesel ao diesel trouxe mais previsibilidade para o consumo da soja produzida.

 “Realmente houve a mudança quanto a mistura do biodiesel chegou ao B10 (10% de biodiesel no diesel), e demos uma previsibilidade de consumo, ainda mais com a decisão de aumento de 1% até 2023, chegando ao B15. Isso deu um grande estímulo para o processamento da soja no mercado interno”, conta Nassar.

Demanda aumenta

Segundo Nassar, em 2020 o país irá fechar com uma produção de 6,4 milhões de metros cúbicos de biodiesel. Em 2021, por conta da elevação do B12 para B13, serão acrescidos 650 mil metros cúbicos ao total, ou seja um aumento de 10%. Em 2022 o país passará para o B14 e precisará de outros 1,1 milhão de metros cúbicos. Por fim, em 2023, quando termina a obrigação de elevação da mistura, o país chegará ao B15 e, serão necessários mais 850 mil metros cúbicos de biodiesel.

Para atender essa necessidade, o país deverá acrescentar 10 milhões de toneladas de soja à sua matriz de processamento interno até 2023. Este ano deve fechar com um total de 44,5 milhões de toneladas de soja. Ou seja, em 2023 o país está processando 54,5 milhões de toneladas de soja.

“A partir daí fizemos uma estimativa que até 2028 teríamos o B20. Isso mostra o que representa em relação à demanda adicional. Até 2023 já temos tudo garantido por lei, só que dai para frente há uma grande incerteza para o setor”, afirma Nassar.

Confira o gráfico abaixo.

Mudanças à vista

As incertezas citadas pelo presidente da Abiove se referem a uma mudança iminente no setor. Que muda os moldes como o biodiesel é negociado e cria a abertura para uma gigante entrar no mercado.

“Existe a chance de uma mudança muito grande no mercado que chamamos de downstream, olhando principalmente o lado do refino do petróleo. A Petrobrás e o governo já tomaram a decisão de fazer a venda de alguns de seus ativos. Ao tomar essa decisão teremos implicações diretas sobre o biodiesel. Isso porque hoje o biodiesel tem um formato de comercialização em leilões públicos operacionalizados pela Petrobras. E nem ela, nem a ANP querem mais fazer esse leilão”, diz Nassar.
O presidente da Abiove confirma que dia 9 de dezembro, o Conselho Nacional de Política Energética tomou algumas decisões e a primeira foi pedir o fim dos leilões públicos até dezembro de 2021.

“Então já sabemos que a partir de janeiro de 2022 o sistema de comercialização de biodiesel será diferente. O segundo é que foram criados dois comitês um para discutir o selo de biocombustível social, já que hoje para uma usina de biodiesel participar do leilão público ela precisa desse selo comprovando que compra a matéria prima de agricultura familiar”, conta Nassar.

Novos produtos e gigante no mercado

Outro ponto destacado por Nassar que traz incerteza ao setor atual de biodiesel é a entrada da Petrobrás no setor. Antes de explicar como isso é feito, a Abiove explicou como o processo para se produzir o biodiesel.

“Hoje o diesel brasileiro é composto de petróleo e 12% de biodiesel. O biodiesel é um processo esterificado que consiste no uso do óleo vegetal, como o da soja. Ou seja, a empresa compra óleo vegetal e produz o biodiesel, ou há uma esmagadora de soja que já faz o processamento do óleo e produz o biodiesel lá mesmo”, comenta ele.

A explicação anterior se fez necessária pois há um debate no setor sobre a criação de novos produtos que tornariam o diesel mais renovável. Um deles é um diesel 100% renovável, ou seja, produzido só com óleo vegetal, sem petróleo.

“O principal produto é chamado de HVO. Onde o processo de produção é diferente, usando 100% de óleo vegetal. Ele vai para uma indústria química para ser hidrogenado e, após isso, vira um óleo diesel, com todas as características. Ou seja, pode pegar o HVO e colocar direto no tanque. Isso sim é uma evolução, transformando o mercado de ciclo diesel que começou misturando o biodiesel. Com isso, em alguns anos, já não seria mais necessário usar o combustível fóssil”, afirma Nassar.

Também de olho nesse mercado, outra decisão da Petrobras, segundo Nassar, foi criar um produto para concorrer com o biodiesel: o Diesel RX.

“Esse RX pode ser chamado de no máximo um combustível fóssil melhorado, mas não é de origem renovável ou comparável ao biodiesel. Um país que importa 20% do diesel que precisa, deveria estar discutindo como diminuir essa necessidade. Mas estamos indo na contramão e, pior, debatendo se esse produto deve ser incluído no mandato do biodiesel.”, diz o economista-chefe da Abiove, Daniel Amaral.

Ele explica que, neste caso, não seria necessário transformar o óleo de soja em biodiesel e, portanto, não deve ser considerado um biocombustível.

“Eles já informaram que querem participar do mandato do biodiesel, ou seja querem uma autorização para a empresa vender o RX. Dirão que o comprador ganhará 5% de biodiesel, mas que na verdade não é, está ganhando 5% de óleo vegetal co-processado”, explica o presidente da Abiove.

O executivo explica que se a Petrobras conseguir acessar o mandato de biodiesel do país, aquela expectativa de aumento de biodiesel de 2024 e 2028 não irá acontecer.

“Evidente que se ela entrar no mandato existente, a evolução que prevíamos, a partir de 2024, não vai ocorrer. Pois com o porte da Petrobras, ela automaticamente irá roubar mercado do biodiesel e aqueles aumentos no processamento não acontecerão”, afirma.

Nassar ainda afirma que há uma grande chance de o setor de biodiesel do país entrar em colapso, caso essas mudanças ocorram.

“Se ela for autorizada com esse apoio (entrar no mandato), irá ameaçar diretamente toda a cadeia de biodiesel, pois as empresas do país já possuem uma capacidade instalada para a produção do biodiesel necessária. Consequentemente, veremos usinas de biodiesel parando de funcionar e soja deixando de ser esmagada e processada”, afirma.

A Abiove não se diz contra a Petrobras vender a sua versão do combustível, mas sim de acessar o mandato de usinas que realmente produzem biodiesel.

“Se a empresa acha que isso é bom (Diesel RX), tudo bem, não somos contra isso, mas não concordamos que isso faça parte do mandato de biodiesel. A produção de um diesel com 5% de óleo vegetal não deve ser incentivada via mandato, não para uma empresa do tamanho da Petrobras”, ressalta Nassar.

Cadeia da soja em risco também

Segundo a Abiove, não são apenas as usinas de biodiesel que estão em risco no momento, mas também o consumo da soja no mercado interno. Para Nassar, somente a produção de óleo vegetal não é o suficiente para garantir que a soja fique no país. Isso porque o grão tem muito mais abertura no exterior que o óleo.

“Porque vou produzir óleo vegetal e não exportar o grão que tem mais aceitação e entrada no exterior?’ A Petrobras disse para não nos preocuparmos pois haveria demanda por óleo. Mas não é assim que funciona, pois já temos uma estrutura para produzir biodiesel. A processadora quer agregar mais valor e não vender o óleo de soja. Pois senão seria uma venda normal de uma commodity e isso mudará a tomada de decisão das empresas.”, afirma.